poesias

Poesia de duas autorias

No início de junho eu postei uma chamada nos Stories: para que as pessoas me mandassem o começo de um texto que elas criaram e eu daria continuidade. Foram cinco participantes e hoje eu vou postar o primeiro trabalho em conjunto que é com a Dani Bandoch.

Mulher sentada numa cerca bsixa de madeira e com mobtanhas e árvores coníferas ao fundo.
Dani Bandoch

Dani escreveu o primeiro parágrafo de versos. Os outros eu dei continuidade. Eu gostei muito da experiência de fazer poesia em conjunto pois até então minha criação de poesias é um processo bem solitário, na tentativa de transformar sentimentos, pensamentos, vontades e percepções em versos. Então, aí vai nosso trabalho!


Ela parou, e viu seu rosto refletido na água. 

Seus olhos tristes e a pele pálida. 

Estaria doente? 

Ou apenas cansada?

Cansada de quê?

Seria dessa gente 

Sem coração e ideias malvadas?

De ver todo dia

Falta de gentileza e empatia?

Por dez minutos, ela chorou 

E no lago, seu rosto lavou

Respirou bem fundo

Rezou pelo mundo

Ainda meio desolada

Mas, saiu de cara 

E alma lavada.

…….

Alma, lama

Lama, mala

Mala, alma

No líquido da calma,

que se lava a alma?

Alma é fauna

Biodiversidade do sentir

Sentir sem fala.

Dizem: Deixe ir!

Leve abafado na mala.

…….

No agir, Pandora

Abra a mala agora!

Sentimentos, ensaboa!

Lameada de revolta

Sinta e voa.

Gita, solta.

Lava a alma

Suja de lama

Sufocada na mala

Do sentir que a chama.

Chama e vida

Alma limpa e incompreendida.


Então, na próxima quarta teremos mais uma parceira textual aqui. Quer escrever um texto cmigo? Quer fazer parte da parceria? Entre em contato comigo por email: conversacrua@gmail.com ou:

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Crônica

Sobre Clarice Lispector, ou melhor, carta a Benjamin Moser

Um caderno aberto com uma caneta e uma paisagem de montanhas desfocadas ao fundo.

“Esta obra é o registro da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida de uma mulher. Como tal, parece ser, em sua abrangência, o primeiro registro do gênero em qualquer país. Esta afirmação radical exige particularizações: a vida de uma mulher burguesa, ocidental, heterossexual, casada, com filhos. Uma mulher que não foi interrompida: que não começou a escrever tarde, que não parou por causa dos filhos(…); uma mulher que, como tantos escritores homens, começou na adolescência e perseverou até o fim; uma mulher que, em termos demográficos, era exatamente igual à maioria de suas leitoras. (…) Antes de Clarice, uma mulher que escrevesse durante toda sua vida – e sobre esta vida- era tão rara a ponto de ser inaudito.”

-Benjamin Moser em “Todos os Contos de Clarice Lispector. Editora Rocco. Pág. 13 e 14.

Prezado Benjamin Moser

Li o prefácio do livro Todos os Contos. Livro esse que você organizou e prefácio esse que você escreveu. Sei que você é o autor da biografia de Lispector, Why This World. Um homem branco, estadunidense, fluente em seis idiomas, que entrou em contato com a obra de Clarice quando estudava literatura de língua portuguesa e se encantou com a maneira de Clarice escrever. Acho brava a sua atitude de querer apresentar ao mundo a obra de uma mulher tão incrível, ao mesmo tempo que fico incomodada de que precisamos de um homem branco e nórdico para que isso seja possível.

No livro Todos os Contos eu percebo que você não cansa de comparar Lispectos a autores como Espinoza, Kafka, Tcherkov. Todos homens. Fica clara a sua admiração profunda pela autora, mas existe algo nesse seu discurso que me incomodou bastante: o fato de você comparar escritoras mulheres, exaltando Clarice e dessa forma, desdenhando de outras autoras, outras mulheres. Entendo que você acha incrível ter esse registro da vida de uma mulher que trazia sua realidade e a realidade de tantas outras através de personagens e situações que encantam e nos levam a pensar criticamente sobre nossa sociedade. Clarice sem dúvidas é extremamente sedutora na arte das palavras e sua obra, um exemplo a ser seguido, exaltado, almejado e até mesmo transformado. Porém, mesmo sem perceber, mesmo ao tentar alertar sobre a difícil tarefa que é para uma mulher se manter na escrita, você nesse prefácio aponta as falhas de outras grandes autoras, inclusive Virgínia Woolf. Você diz que Clarice não gostava de ser comparada com ela, já que Woolf desistiu. Trazer isso para o prefácio é lamentável. E ler sobre essa postura de Clarice é para mim, uma admiradora inclusive decepcionante. Mas que bom saber que Clarice tinha suas falhas, isso a aproxima de alguém mais humano e tangível.

Digo isso pois eu não vejo Woolf como uma desistente. Eu vejo o contrário, como uma mulher que resistiu mais do que podia contra uma doença que hoje atinge cada vez mais pessoas. Talvez hoje, se Clarice tivesse dentro do nosso contexto, ela tomaria mais cuidado ao soltar afirmações levianas como essa.

A exaltação à Clarice, mesmo com você, Benjamin, deixando claro que se dá dentro de certas particularizações, ainda assim fere. Pois você fica à beira daquela tênue e perigosa linha: meritocracia. E desses discursos cheios de positividade tóxica que permeia nosso ambiente atualmente. Quem quer, consegue. Eu ainda não li a biografia de Clarice Lispector escrita por você, mas espero fazê-lo em breve. Porém, eu posso imaginar que Lispector, na sua fase, esposa/mãe, possuía algum tipo de apoio doméstico. Além disso, também imagino que ela deve ter tido apoio de babás ou alguém que olhasse suas crianças enquanto ela pudesse exercer sua escrita. E não há nada de errado nisso. Que maravilha que ela pôde ter esse tipo de auxílio, pois eu lhe digo, sem ele, nós não teríamos a preciosidade que temos hoje que é a obra dela. Mas fica evidente que Clarice estava em uma posição de privilégio. Aqui eu não faço juízo vida fácil ou difícil, até porque, mesmo dentro de privilégios, o dia a dia pode ser repleto de lutas. Ainda assim, era um privilégio. Então, muitas vezes o querer não é o bastante para se realizar algo, pois para uma mulher que é mãe, sem rede de apoio, ou que muitas vezes precisa sair de casa, trabalhar em algo que traga um retorno financeiro imediato pois precisa dele para sobrevivência, enfim, todas essas realidades duras, afastam sim as mulheres que muitas vezes tem a escrita tatuada na alma, mas não tem a possibilidade de revelar essa tatuagem para ninguém, pois passa o dia trancafiada e coberta de afazeres e responsabilidades. Eu sou uma dessas mulheres que para escrever, preciso acordar de madrugada, o que com o tempo destrói minha saúde. E nem sempre é possível, pois basta um dente nascendo no meu filho atualmente com dois anos, que ele já não dorme, não me deixa dormir, nem levantar para trabalhar nos meus projetos pessoais. Mesmo disposta a sacrificar horas de sono pelo meu sonho, isso nem sempre é possível. E ainda assim eu me vejo em posição de privilégio pois não preciso sair de casa para trabalhar fora. Será que você entende como são perigosas essas afirmações, por mais cuidadoso que você possa ter tentado ter?

Por mais que você tente apontar questão da mulher e a escrita de forma desconstruída, você ainda tem um distanciamento social e de gênero que fica bem clara na sua maneira de escrever esse prefácio. Pois vocês mesmo está em uma posição de privilégios e escreve sob essa sua perspectiva privilegiada. E isso só demonstra o quanto se torna cada vez necessário termos mulheres das mais diferentes classes representando a pluralidade de seus grupos, seja na escrita, na pesquisa e em todas outras áreas. Tenho certeza que uma biografia de Clarice Lispector escrita por uma mulher e mãe, e um prefácio feito também por uma mulher e mãe, teria uma conjuntura diferente. E isso não significa minimizar suas questões exploradas nesse prefácio, apenas é um alerta para a necessidade de termos mais representatividade em todas as esferas da construção cultural, do saber etc.

Espero que você e qualquer um entenda a crítica dessa carta aberta e que de maneira nenhuma é questionada aqui a imensidão literária que Clarice Lispector foi e continua a ser. É apenas um desabafo a cerca de privilégios, meritocracia e a necessidade da representatividade.

E aí, acham que faz sentido essa minha reflexão? Comentem aqui para eu sabee a opinião de vocês. Vocês também me encontram no Twitter e no Instagram.

maternidade

Dia mundial das crianças

20/09 se comemora o dia mundial das crianças aqui na Alemanha. A data remonta de uma reunião dos países membros da ONU que ocorreu em 1954.

Os objetivos dessa reunião era que todos os países escolhessem um dia para comemorar o seu diaa mundial da criança. A Alemanha escolheu o dia 20 de setembro. Mas mais que escolher um dia, alguns tópicos entraram na pauta como objetivos a serem perseguidos como:

• Comprometimento com os diretos das crianças;

•Apoiar a amizade entre crianças e adolescentes;

•Uma vez por ano os governos deveriam publicamente se comprometer a apoiar o trabalho de organizações relacionadas a Unicef.

A ONU elegeu o dia primeiro de junho para comemorar o dia internacional das crianças. E o Brasil comemora no dia 12 de outubro.

Na prática eu acho que essas datas poucos são valorizadas como momento de reflexão política e de proteção real às crianças. Pois violência contra a criança começa numa proibição de restaurantes da presença de famílias com crianças e termina numa menina de dez anos estuprada que tem o direito legal ao aborto, mas enfrenta o protesto falso moralista de religiosos fanáticos na frente de um hospital. E isso é reflexo de uma sociedade que tira da criança o direito de ser criança.

Eu me lembro muito da polêmica na exposição do MASP, se não me engano, em que as imagens de uma criança vendo um homem nu e tocando o braço do performador, viralizaram e chocaram as pessoas. Mas não choca o presidente fazer piada sexista com uma criança em plena live, ou o apresentador Silvio Santos fazer piadas com duplos sentidos em plena rede nacional, expondo crianças ao ridículo. Ou mesmo aquele tio do pavê que pergunta para crianças brincando juntas se são namoradinhos. Não choca ver meninas em idade pré escolar maquiadas e fazendo poses sexy para câmera sem nem mesmo ter noção daquilo que fazem. No dia das crianças, apenas nos concentramos em dar presentes ou fazer um passeio especial ou passa desapercebido. Mas não existe um movimento de mudança e de cobrança para que os direitos das crianças não apenas sejam ampliados, como sejam também respeitados. Que as crianças sejam vistas como seres humanos e sejam tratadas respeitosamente como tal. Se uma pessoa fala uma frase racista, homofóbica, etc, ela pode ter de enfrentar um processo jurídico. Mas quando pessoas falam “Eu não gosto de crianças!”, isso é visto como uma expressão de opinião. Mas a pessoa acabou de dizer que não gosta de seres humanos. Eu acho isso tão absurdo e tão desconcertante saber que temos que ouvir isso e aceitar que essa frase tão discriminatória seja proferida sem que haja algum amparo legal (ou há e eu não estou bem informada?) para que uma atitude seja tomada.

Bom, eu volto no dia 12 de outubro para falar mais sobre questões relacionadas a infância para não me estender muito nesse post aqui. Afinal, indignação aqui é o que não me falta.

Crônica

Meu celular travou

“Se o cachorro doido mordesse a criança, ah mas aí tinha jeito mais não.” – Minha Avó.

Às vezes me sinto ridícula quando lembro da realidade de onde eu vim e das minhas raízes. Meus avós lutavam pelo básico: sobrevivência. O estresse deles era que nenhum dos filhos fossem picados ou mordidos por um bicho venenoso ou doente. Era ter comida na mesa para todo mundo, todos os dias… E eu já quase tenho um pire-páque quando o celular ou o computador encrencam. Já notaram como a gente deixa a nossa paz ser roubada assim, por nada?

Há duas semanas eu gravei e editei dois vídeos no celular para meu canal de escrita criativa no Telegram. Acontece que quando fui ver o video salvo, ele simplesmente ficou comprometido. Veio aquelas faixas coloridas, meio distorcidas, como as de TV antigamente, quando ocorria pronlemas no sinal, sabe? E quando fui ver o arquivo original, percebi que ele também estava comprometido. Todas aa ultimas fotos e vídeos foram destruídas. É a segunda vez que isso me acontece. O desespero bateu, pois eu havia prometido os vídeos. E até a data dessa publicação, quase três semanas depois, ainda não consegui enviar, apesar de já ter gravado numa câmera e salvado no PC.

A primeira sensação foi mesmo de desespero total, afinal, eu prometi os vídeos. Mas daí vem aquela voz da mente que implora por um pouco de sanidade mental e pergunta: Você vai sofrer dano por isso? Sua vida entra em risco por isso? Não né? Então sossega. E esse exercício eu tenho feito com tanta coisa na vida e super indico, principalmente para produtores de conteúdo que vivem às beiras do burnout: Entendam que vocês não são máquinas e até as máquinas falham (vide meu celular) e está tudo bem! E para quem usa o instagram: Use algoritmos a seu favor mas não se torne escravo dele. Não vale a pena. E aos que esperam por esses videos no canal de escrita criativa no Telegram, não se preocupem que vou mexer meus pauzinhos mágicos para eles saírem logo! Até lá, leiam “A arte poética de Aristóteles”.

E você, já entrou em crise por causa de um aparelho que decide pifar na hora mais imprópria? Conta o causo aí nos comentários.

Você ainda pode entrar em contato comigo por Twitter e por instagram. E tem o canal do Telegram onde troco figurinhas sobre escrita criativa para todo mundo que queira escrever melhor! Vejo vocês por lá!

maternidade

Nevoeiro materno

De repente vem a sensação de que sigo minha vida sem propósito. A vida se torna afazeres, responsabilidades. A qualquer deslize, a cobrança pelo erro vem em cifras caras para a psique. Que tipo de mãe você é? Que tipo de mulher?

Chega uma hora que é difícil definir qual vontade é genuinamente sua e qual vontade lhe é imposta pelos outros. Eu quero ficar em casa com meus filhos por alguns anos ou quero levá-los à creche cedo e voltar a trabalhar o mais rápido possível?

Eu quis ficar com meus filhos. Mas essa foi uma opção muito dura. Pois ao optar por estar com filhos, você perde seu valor na sociedade. Eu via pessoas que antes tinham uma relação de admiração comigo, de repente até me tirar do seu convívio. Coisas de mães que falavam : “Jamais viveria às custas de marido.” E essas palavras ferem. A maternidade se torna pesada demais, pois ela não traz um retorno financeiro visível numa sociedade basicamente capitalista onde seu valor se mede pela sua posição social e seu poder de compra.

Ninguém pensa que meu marido só pode trabalhar tranquilamente pois sabe que tem alguém cuidando dos filhos dele. Eu fico imaginando quanto ele gastaria se ele tivesse que pagar uma pessoa para fazer tudo que eu faço. Essa conta ninguém quer fazer. É mais fácil pôr a mulher nessa situação vulnerável como dependente, quando na verdade ela contribui ativamente para o financeiro familiar. É mais fácil desdenhar de uma mulher que opta ficar em casa. Quem escolhe uma mulher que ficou em casa com os filhos para ser uma figura digna de admiração? Muitas vezes nem os próprios filhos. Se admira Simone de Beauvoir, Angela Merkel, Angelina Jolie… Mas não se admira a Maria de Souza que vive em função de filhos e casa. Aliás, que combo pesado esse! Se eu fosse babá ganharia para “apenas” cuidar de crianças, como se isso gosse pouca coisa. E não é. É uma grande responsabilidade, é desgastante! E como mãe, esse combo parece ser impossível de se desassociar.

E aí, diante de tantas coisas e causas e causos que me pressionam internamente, eu me vejo num nevoeiro sem conseguir ver claramente o meu querer genuíno. Pois é perigoso cair na tentação de querer ver novamente o brilho de admiração que havia nos olhos das pessoas pelo alguém que você era antes da maternidade. Pois é fato: Você jamais volta a ser quem você era antes da maternidade.

Que o nosso sol interior dissipe esse nevoeiro traiçoeiro e a gente consiga fazer as escolhas que só dizem respeito a nós mesmos sem levar os olhares, críticas e pitacos maldosos alheios em consideração.

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Para fechar esse texto, deixo a indicação do Video do Greg News “Cuidado“. Um vídeo que todo mundo precisava assistir para entender que uma sociedade só funciona porque existe quem cuide de bebês e crianças.

O que vocês acham da relação capitalismo verso maternidade? Bora continuar a conversa? Pode ser por aqui nos comentários ou no instagram e Twitter.

Crônica

Fantasmas

Foto mostrando chão com pedras e algumas folhas secas. A frente árvores típicas do norte com pedras grandes no chão e uma imagem borrada de uma criança brincando em cima delas.

Tenho medo. Tenho medo do medo. Medo do medo me paralisar. Medo do medo não me deixar mudar. Medo machuca, mas medo melhora. Há um muro a frente, impede o caminho. O muro é medo. E para seguir, há de se escalar o muro. O medo.

Procuro meus fantasmas. Memórias, histórias, sentido. Quem eu fui, quem eu sou, o que se perdeu… Resgatar a força enfraquecida. Fui envenenada por crenças. Sobre mim, sobre o mundo, sobre Deus. Crenças que em nada acrescentam à vida. Dogmas exorcisados do ser. Vendidos em cápsulas de Verdades absolutas. Placebos de uma vida sem sentido. E ninguém percebe. Ninguém vê. Ninguém sente. Todos anestesiados pela ilusão de serem importantes. Pobres impotentes.

Despertar desse transe é ter seu pulmão rasgado pela segunda vez. Você grita, grita alto, lá no fundo da sua alma. Pois nem todos estão prontos para ouvir esse grito ensurdecedor. Pois seguem as regras vigentes. Pois! Você não faz mais parte dela. Você precisa mudar. Mas tem medo. Não há manual de instrução para tomar o pouco que resta da ilusória liberdade em mãos e artesanalmente adequá-las às silhuetas de sua existência.

Comecei comigo. Termino com você. A existência é individual. É minha. É sua. E de individualidade a individualidade, construímos o coletivo. O coletivo está doente. Reflexo de indivíduos doentes. Eu e você. A cura é jogar os frascos de verdades absolutas fora. Sair desse transe coletivo. Entender que precisamos fazer uma revisão de matérias importantes. Vida, existência, coexistência, necessidades reais e necessidades resultantes dos delírios tatuados em regras abstratas. Eu sei. Dói. E temos medo da dor. Receio que seguiremos dopados de placebo. Mas eu não. A vida é uma só para se viver ausente da existência.


Os últimos dias tem sido de intenso mergulho na alma. O luto é um processo dolorido, mas é também um ponto de partida para reformar a vida. Dessas inquietações internas saiu essa crônica e quis dividí-la com vocês. Essas coisas de escritora. Vida de escritora é por em palavras o que sente a alma para tentar colocar ideias e sentimentos em ordem. Escrevo cheia de sentimentos e sensações e espero que esse texto toque vocês a sentir e repensar alguns aspectos das suas prórpias vidas. Não há manual de instruções mas por sorte, podemos nos fazer constantemente questionamentos ao longo do caminho. Então deixo essas questões aqui para vocês:

Como vocês lidam com processos de mudanças? Como enfrentar o medo do desconhecido e seguir em frente? Como se libertar de velhas crenças e se redescobrir além delas? Vejo vocês num próximo post.

Camilla Saloto

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Tradutora de Alemão

Johann Wolfgang Goethe – poesia

 



1770-1786 Estrasburgo, Frankfurt, Wetzlar, Weimar


Uma manhã cinzenta e sombria

Meu amado campo cobria,

Escondido na névoa, bem no fundo

Se encontra ao meu redor o mundo.

Oh Friederike amável,

Teria a permissão para você voltar,

Já um dos seus olhares

Irradia sol e alegria.

A árvore, em suas cascas

Junto ao seu nome, o meu,

Com o vento seco a esmorecer,

Carrega consigo todo prazer.

O campo de verde brilhante

Fica nublado como minha face,

O sol ele não mais vê,

E eu, Friederike, não vejo você.

 

Logo eu vou para a vinha

E uvas vou colher,

Ao redor tudo é vida,

Jorra novo vinho.

Porém no caramanchão entediante,

Eu penso, se aqui ela estivesse

Essas uvas, eu lhe traria,

E ela, o que ela me daria?

 

Bom, essa foi minha tradução para a poesia de Goethe. Goethe é um dos maiores nomes da poesia alemã. Juntamente com Schiller eles são considerados pelos estudiosos como os encabeçadores do movimento do romantismo, tão propagado na Europa do século XVIII. Das obras mais famosas, com certeza Fausto e Os Sofrimentos do jovem Werther se destacam.

Como vocês podem perceber no original, ele valoriza bastante as rimas, sem necessariamente privilegiar uma métrica idêntica em todos os versos. Eu tentei na tradução do alemão captar o sentido do texto e trazer rimas sempre que possível, o que nem sempre é possível. Eu imagino que se Goethe tivesse escrito em português, ele faria se aproveitaria das aliterações e das sonoridades das palavras homônimas, por exemplo no último verso:

“E eu vinha a vinha

Uvas virei colher.

Vinhas de uvas e vida

Amada Friederike, onde está você?

Entediante esse caramanchão

Pego-me a mirar o chão 

E imaginar que uvas lhe traria

E ela, o que me daria?”

 

Aqui eu fiz uma releitura desse texto, mas que não é completamente fiel ao texto original. Eu fiz essa tradução sem ler nenhum exemplar dessa poesia já traduzida para não ter nenhuma outra interferência.

E aí, para quem fala alemão, gostaram da tradução? Que acharam da versão goethificada dessa que vos escreve? Se você não tem ainda contato com a literatura alemã, já ouviu falar em Goethe e nas suas duas famosas obras? Já leu algo dele? Me conta aqui nos comentários.